domingo, 12 de agosto de 2018

Breve conversa




A mulher tem marido, filhos, duas televisões, rádio, celular, campanhinha, interfone e ainda assim se sente só. Sai ou entra alguém pelo corredor e ela vem olhar; quer falar, se abeirar, se amigar, quer não estar só.
O filho menor quer conversar, o maior quer sair e o marido quando chega quer companhia para ver o futebol. Mas a mulher não quer conversar com o filho menor que é tão menor, não quer deixar o maior sair, pois é melhor que fique em casa guardado pelos youtubers do que correrendo perigo nessas ruas mansas, não quer ver futebol, pois é jogo do flamengo e ela, ainda que quisesse ver o futebol, não torce para o flamengo.
Como é difícil! E a vizinha não pára um instante no corredor reclamando da chuva “que não deixa as roupas secarem!”. Para seu alento a cidade também faz aniversário. E foi uma tarde inteira de ruído de secador de cabelo.
Entretanto logo hoje o marido se fez doente. Chegou do trabalho espirrando alto. Desenhava-se uma noite qualquer com os filhos jogando e o marido adoecendo.
Ela não disse nada. Levantou-se. Escolheu a roupa, foi ao banheiro, vestiu-se, maquiou-se, pegou a chave do carro e foi para a festa. Tão sorrateira que ninguém percebeu. Os meninos jogando, o marido assistindo futebol e adoecendo. Seguiu belíssima, uma mão no volante e outra descansando sobre a porta do carro de vidro aberto. Quando...
GGGOOOLLL!!!! Gritou o marido na cama ao seu lado. Ficou aporrinhada. Levantou-se, abriu a porta e foi para o corredor, mas não havia ninguém, nem para uma breve conversa.

Rafael Alvarenga

Cabo Frio, 12 de agosto de 2018