Pinga e range dentro da crônica
Dizem que preciso colocar óleo de máquinas nas
dobradiças da porta da frente que insistem em ranger para anunciar a chegada de
quem quer que chegue. E que também devo pedir emprestado ao meu vizinho a
furadeira de marca alemã para instalar na parede lateral da área de serviço o
conjunto de prateleiras que por ora dormem em pé feito cavalos brancos. Ah, e
também dizem que a carrapeta da torneira da cozinha necessita ser trocada,
porque o pinga pinga e a tensão pré-menstrual, uma vez misturados, resultam na
invenção moderna da pólvora – que me desculpem os chineses, mas nesse momento
seria intransigente respeitar tão fielmente a história das invenções.
E eu tenho um amigo que se orgulha em afirmar que
na sua casa tudo funciona. Não há ventilador que não tenha três velocidades,
chuveiro que não seja uma tromba d’água! Lembro-me do poeta Manoel de Barros
que disse ter passado a vida fazendo inutilidades! E eu, o que faço afinal? Ele
ainda fazia poesia. Mas e eu que ao tentar consertar uma maçaneta fico em
dúvida se encontro motivo para a crônica. E quando encontro eis que outra coisa
há de quebrar, desregular, entupir, arranhar, arriar, despregar. Se tento consertar
não escrevo e se escrevo não conserto.
Mas confesso, não me fica nenhuma angústia. Se a
porta range é por que chega alguém com uma história. E se a história deixa a
porta continuar rangendo é porque o cronista vai contar o que sentiu. Pois
nesse mundo ainda há aqueles que se orgulham de fazer certas inutilidades por
motivos bobos.
Rafael Alvarenga
Itatiaia, 02 de março de 2016
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